...doente, triste. Meus pais me chamaram de Júlio em homenagem a Júlio César, o grande imperador de Roma. Sobrevivi ao erro dos meus pais, que ao se sentirem ameaçados com a responsabilidade de cuidar de uma criança, acharam melhor o aborto. Minha mãe se drogava constantemente, mas a mão divina estava sobre mim que, mesmo nascendo fraco, fui forte para sobreviver ao amor assassino de quem me deu a luz.
Eu deveria estar aqui a mais tempo, com o vento no rosto, vendo os carros pequeninos passando por baixo de mim, mas não; estava escrito que eu deveria viver para ensinar que morrer faz parte da vida e sofrer faz parte de nós.
Fui crescendo, magoado pelo passado que aos poucos vinha deixando ainda mais clara a idéia de rejeição de um erro cometido por dois jovens "inocentes". A marginalidade, o suicídio, foram apenas algumas das tantas idéias que surgiram no meu pensamento. Fugir parecia-me a melhor escolha, mas como fugir da vida? Esse raciocínio egoísta me perseguiu constantemente durante muitos anos, mas nada fiz. Talvez estivesse com medo, me acovardando de um destino cruel que parecia ser a melhor saída naquele momento: morrer.
Se covarde fui, por não ter que me entregar ao inferno de uma vida infeliz, mais covarde ainda havia sido por pensar que a morte seria a saída, já que não se deve fugir dos problemas e sim resolvê-los. Embora me conviesse pensar que o problema maior fosse a minha existência. Não sei onde arrumei força para ver a vida de forma diferente. Pensei tanto em mim que esqueci dos outros. Eu já fazia parte de muitas vidas, pessoas que, sem saber, me adotaram como filho, amigo, companheiro. Não havia me dado conta de que a vida não existe, existem sim, VIDAS que se ligam na forma de uma teia. Pessoas buscam a sua esperança em outras. Seus defeitos são o que elas buscam observar no vizinho do lado. Viver passou a ser uma obrigação, já que a esperança não deve morrer, decidi ser a esperança que eu não tinha, e buscar forças para continuar meu caminho.
Na verdade, percebi que devia encontrar o que poucos já encontraram. Ou tiveram coragem de sustentar. AMOR Nem que fosse das prostitutas da esquina, de um cachorro esperando que eu passasse as mãos em sua cabeça, de uma avó que me tratasse como criança mesmo eu já tendo barba. Eu era carente, porém teimoso e persistente.
