Tomás olhava, incrédulo, aquela cena nada convencional. Estava acostumado a receber bem menos, mas aquele brilho meio prateado meio dourado...
– Será que era de verdade? (Pensou)
– Acho que vou morder (Disse para si mesmo)
– Mas mesmo se fosse falsa, a mordida não seria a mesma? Afinal, dente nunca foi mais forte que nenhuma liga metálica.
– Mas se amassar... Será? Falsa?
Nesse momento fez menção em colocar a moeda entre os dentes
– Espere Tomás! E se quebrar? (Hesitou)
– Dói só de pensar. Dor de dente é cruel.
Ao olhar novamente para a moeda, mas um pensamento o perturba
– Dinheiro mesmo ganho de forma limpa é sujo. E se eu morder e pegar um verme! Ou uma doença mais séria?
– Uma solitária! Uma galera! Uma tropa de vermes... (Tomás sente um frio na espinha)
– Ave Maria! Que pensamento mais insano!
– Deve ser a fome. (pensou)
Fazia dois dias que não punha nenhum alimento de verdade na boca. Somente água da fonte da praça e alguns restos que achou no chão e nas lixeiras.
–Hum! O cheiro ainda estava no ar... Cachorro quente, pipoca, acarajé... Hum!
– Droga babei na moeda!
Apesar de tudo Tomás estava feliz. Pois geralmente recebia somente centavos. Às vezes para conseguir um conto, demorava mais de duas horas e aquele estava ali, Inteiro, em suas mãos.
– “Um conto” era tudo que tinha. A moeda já havia mudado de nome, mas, para Tomás, não importava. Era “um conto” e pronto.
Tomás pensou no que podia comprar. O valor era pouco para saciar suas necessidades, mas, se usasse bem, quem sabe, poderia, mais uma vez, enganar a fome.
– Se as pessoas fossem mais caridosas ia ser tão bom! (suspirou)
– Não! Não sei se seria. Pois se ao invés de centavos começassem a dar valores maiores à concorrência poderia aumentar. Já pensou? Do jeito que está já é complicado, se dessem mais, não sei não.
– Teria um bando de desocupado ocupando a rua. Hahahahahahahah! (Tomás solta uma risada banguela)
De repente! Uma leve pontada vem à cabeça. Tudo se apaga... A luz, a dor, a fome, a vida. Uma bala perdida, um crânio, um corpo...
Pela primeira vez na "vida" Tomás era o centro das atenções. Não era alguem sem valor. era um anônimo, uma vítima, ou apenas um conto esparramado no chão.
