Conheci Júlio na quarta série, ele era muito popular com os colegas. Esforçado nos estudos, mas nunca foi de tirar as melhores notas. O vi chorar muitas vezes assim como já chorei muitas vezes junto a ele. Eu era o caladão no fundo da sala, o cara estranho, a quem os outros não se arriscavam deixar entrar em suas "Panelinhas", fui assim na Ia, 2a e 3a séries, mas aí conheci meu primeiro e melhor amigo. Ele percebeu que eu era tão só quanto ele, porém ao contrário do que ele fazia eu preferia não me mostrar as pessoas. Isolava-me em silêncio, falava somente o necessário. Júlio veio me fazendo uma série de perguntas que ninguém jamais havia tido curiosidade de saber: De onde eu era? Por que não me juntava aos outros? Qual motivo da minha tristeza?
Ciúmes talvez. Meu irmão mais velho e outro mais novo tinham todas as atenções da casa, enquanto a mim, as broncas. Júlio me mostrou o quanto é fácil sorrir diante da tristeza. Vendo nos lábios alheios o sorriso que não nascia espontaneamente em nossas faces. Na base do humor ele sabia colocar qualquer um para cima. Ainda que em sua casa, tudo estivesse de pernas para o ar.
Certa vez eu estava chorando, na varanda de casa quando Júlio pulou o muro e sentou-se ao meu lado.
- O que aconteceu? Qual é Marcos o que foi?
- Meu boletim. Levei uma sova daquelas.
Em silêncio Júlio permaneceu ao meu lado, com os olhos abertos, sem piscar. Ao olhar para seu rosto percebi um sorriso que contrastava com seus olhos cheios de lágrimas. Então perguntei o motivo de seu choro. Ele ironicamente respondeu:
- Não tenho nada melhor para fazer, assim como você.
Desse modo, fazia com as pessoas. E, sorrindo fomos bater papo, jogar conversa fora na rua, e eu até esqueci que estava de castigo levando outra sova ao voltar.
Seria bom se todos os problemas do mundo fossem resolvidos com uma boa conversa, contudo para haver diálogo e necessário compreensão, mas, se nós não somos capazes de nos compreender, como compreenderemos os outros? Assim começam as guerras, as incompreensões são meramente o prenúncio de um confronto maior, onde homens que já se cansaram dos próprios erros criticam os erros alheios para tentar se justificar.
Vida. O que é a vida? Para muitos é estar com a família, o que infelizmente não é o meu caso. Para outros tantos é curtir a boemia. Para mim é estar do lado de alguém especial. A vida, para alguém como eu, é uma pessoa, cheia de carinho, com a audácia de dizer o que sente, humana ao ponto de dizer que está errada e apontar os meus erros, tão doce que uma vez conhecida, jamais poderá ser apagada de meu coração. E é por ela que estou aqui. Sim, ela é a minha vida, pois depois que a conheci, finalmente comecei a viver. Tipos como eu são destinados ao sofrimento, já que o verdadeiro amor é algo raro, sofremos na ilusão de termos amado e sido felizes. Morremos e nascemos a cada instante. Para muitos, cair e se erguer faz parte da rotina, mas, para outros, cair pode significar chorar por um tempo indeterminado, mesmo que não haja lágrimas umedecendo-lhes os olhos, tudo é triste.

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