Num acesso repentino de gargalhadas, eu, meio sem graça, acabei entrando na gozação e caindo na algazarra. O jogo continuou até o Sol baixar, fui para casa tomar banho. Não havia ninguém por lá, já que a minha mãe estava no trabalho. Liguei a televisão e deitei no sofá. Tudo parecia normal, comecei a fazer meu exercício de matemática, fritei uns ovos para comer com arroz, fui assistir a novela das oito. Até ouvir socos na porta e uma voz enrolada tentando dizer: "abra aqui...", já era tarde, passava da meia noite, porém, decidi abrir, afinal, já era costume minha mãe chegar tarde meio... você sabe.
Antes eu estivesse errado, era ela sim, contudo não estava só, um cara careca, com a barba a fazer, fedendo a álcool e duas mulheres conhecidas como "amigas da minha mãe" vieram com ela. A noite foi interminável. Eu tentava dormir, mas o odor de álcool me dava náuseas, gargalhadas entravam pela porta do meu quarto numa tortura continua. Ouvi a porta se fechar e o barulho cessar por alguns minutos, concluindo que a visita indesejável já havia se retirado, levantei-me e fui para a sala. Eu tinha 10 anos.
- O que é isso? - sussurrei para mim mesmo ao presenciar tão deplorável cena: minha mãe seminua era tocada por aquele bicho/homem, velho, gordo, fedendo como um cão samento, suado
naquela orgia demoníaca. Não pude suportar aquilo e gritei: - Mãe!!!
Nesse momento o homem a empurrou. meio que culpado e, rapidamente começou a vestir a roupa dizendo que era melhor ir embora.
- Não! Você não vai. Eu quero você, eu quero você. Dizia ela tirando a peça de roupa que faltava. Ele, tentado pela volúpia, abraçou-a e deu-lhe um beijo nojento. Eu corri para perto e afastei os
dois.
- Mãe, a senhora não tem vergonha? Como é capaz de fazer isso aqui? Dentro da nossa casa? -
- Ele tá certo, Cat, eu vou embora.
Ela desesperada agarrou-lhe as pernas implorando para que não fosse.
Não pude me conter, o meu coração apertado chorava. Enquanto isso ela se humilhava e o homem tentava vestir a camisa, apesar da insistência para que não o fizesse. Eu me aproximei para segura-la, mas fui repreendido rudemente.
- Saia daqui, demónio, filho desgraçado! Sua alegria e me ver só, não e? Saia! Vá embora!! Vá pro inferno!!!!
Morri mais uma vez, o homem se foi, mas a ferida ficou. Chorei muito, minha mãe, xingou, xingou, mas logo adormeceu anestesiada pelo álcool. Era mais uma noite comum na minha vida.
Mais um dia nasce. Catarina acorda com horríveis dores de cabeça e não se lembra de nada sobre a noite que passou, ou, pelo menos, finge não lembrar para não admitir a loucura e a sua falta de amor próprio. Fiz o café, ela entrou na cozinha, olhou, mas não comeu nada, saiu sem dizer uma palavra. Enquanto a mim, sentamo-nos a mesa, eu e Deus, para o café da manhã. Fui para o colégio, naquele dia estava marcada uma prova, a qual, mais uma vez, não tive ânimo para estudar.
Terminada a prova, fui andar para ver se esfriava um pouco a cabeça, mas de nada adiantou, andei durante horas embaixo do Sol e voltei para casa. Minha mãe não tinha ainda dado sinal de vida, pois não veio almoçar. Peguei alguns livros. Hora ou outra lembrava as cenas deploráveis da noite anterior. Lembranças mais remotas me sucediam naquele instante como a vez em que minha mãe chegou tão bêbada que começou a me bater sem motivo algum. O cinto maldito me feria com a ponta da fivela, pois era daquele lado, o ponto melhor para tatuar o ódio e a loucura desesperada de Catarina.

0 comentários:
Postar um comentário