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Nesse tempo, minha querida avó veio morar conosco, pois, acreditava que minha mãe não desse conta de cuidar de uma criança. E ela estava certa. Nessa última surra o cinto cheio de ódio acertou o meu olho esquerdo e, se minha avó não estivesse comigo nesse dia, com certeza eu estaria cego agora. Dr. Givaldo foi um grande amigo. Pois sempre cuidava de mim de uma maneira especial. Minha avó dizia que quando eu chegava em crise ele a mandava entrar, tendo a fila que tivesse, eu era atendido imediatamente.
...
Júlio foi um paciente especial. O conheci com poucos meses de vida, era pequenino, abaixo do peso normal. Sua cabeça tinha uma deformação, era murcha na parte anterior. Provalvelmente causada por efeito de algum medicamento tomado por sua mãe tomara durante a gravidez. Pedi muitos exames quando ele chegou a clínica, desmaiado e com insuficiência respiratória. D. Arminda, desesperada, implorava em prantos. - Pelo amor de Deus, Doutor. Não deixe meu filhinho morrer. Pelo amor de Deus. Enquanto a criança era internada na UTI.
Algumas vezes eu tive que dar a ela medicamentos para baixar a pressão já que a senhora, nervosa, tinha problemas de pressão alta e também acabava tornando-se, de certa forma, mais uma paciente. Nos exames constatei que Júlio tinha vários problemas: Desnutrição, insuficiência respiratória e um problema neurológico raro, que causava falha do sistema nervoso central o que fazia a criança perder os sentidos, um descontrole térmico abrupto causava uma série de convulsões que faziam seu corpo tremer e músculos enrijecerem, o corpo ficava paralisado tal como um desmaio porém bem mais perigoso, se ele ficasse mais que alguns minutos desacordado, poderia sofrer danos irreversíveis na memória e no próprio funcionamento normal do cérebro, o que obrigava-nos a acorda-lo mediante um tratamento de eletrochoque. Apesar desse triste quadro clínico, havia alguém que o amava mais do que tudo, e, estava disposta a comprar essa briga de vida e morte para que seu neto pudesse ser uma criança normal.
D. Arminda saia com a criança nos braços, com bonezinho na cabeça, e ia inúmeras vezes a igreja pedir melhoras para neto. Chegou a fazer promessa dizendo que iria a Bom Jesus da Lapa, com Júlio curado e com uma cabecinha de cera para agradecer a graça que ela acreditava, de coração que iria receber. Ela contou-me isso chorando e sorrindo quando Júlio completara, 5 anos de vida. Ela disse que já havia parado de dar os medicamentos que receitei pois a criança já não tinha mais convulsões. Eu, muito feliz pelo quadro ter se revertido, agradeci a Deus. E disse que sempre que ela precisasse sabia onde me encontrar.
...
Nesses pensamentos dolorosos, adormeci. Em meu sonho, uma voz doce e macia dizia: "eu te amo", tudo era um vulto, uma névoa densa que deixava transparecer silhuetas deformadas como fumaça, mas isso já não importava, o afago que aquela voz trazia me confortava. De repente, tudo começou a clarear e eu estava só, deitado na cama, olhando para o teto. Havia acordado, mas tudo que eu queria era continuar sonhando, ouvindo aquela voz, aquelas palavras...
— Júlio!
— Oi, mãe, por que você não veio almoçar? — disse eu apreensivo.
— Eu não estava com fome, filho. O que você comeu?
— Bem lembrado, mãe. Eu não comi nada. — respondi-lhe colocando a mão sobre a barriga que roncava.
— Vista uma roupa, vamos jantar fora.
— Mas eu nem tomei banho ainda. — retruquei
— Tudo bem, o banho pode esperar.
Nós saímos e fomos jantar. Minha mãe não parecia a pessoa da noite anterior, estava meiga, dava-me conselhos para não beber ou fumar. Falou comigo até sobre drogas! Aquela era a Catarina sóbria, a Catarina prudente, a Catarina mãe. É incrível como uma pessoa pode adquirir faces tão diferentes. Quando alcoolizada, era sorridente, gostava de divertir-se de maneira não apropriada, as vezes ,enfurecida, jogava para alto o que estivesse mais perto na hora, chamava o demónio nas alucinações,e mal conseguia manter-se em pe. Porém a outra Catarina era triste, gostava de dar conselhos sobre a vida, me motivava nos estudos, brincava, às vezes, comigo e dava-me carinho. Essa Catarina eu sempre amei.
Depois do jantar, voltamos para casa. Catarina reclamava de dores nas costas e cansaço, eu apenas ouvia sem saber o que dizer. Logo fomos deitar, mas não consegui dormir. Fiquei rolando de um lado para outro, me levantando em seguida, fui observar as estrelas que iluminavam o quintal. Sonhei acordado, ouvindo novamente o sussurrar daqueles lábios não muito visíveis, mas doces, os quais outrora me fizeram feliz em um sonho. Acordei cedo para ir ao colégio. A mesa do café estava posta e sobre a toalha, um bilhete dizendo:
"Filho não fique sem se alimentar.
Deixei café pronto e alguns pães no forno
Um beijo!
De sua mãe
Catarina"
Após a leitura do bilhete, fiquei pensando no quanto seria bom se fosse sempre assim, uma amiga companheira, que estivesse sempre comigo. Alguém para eu chamar de mãe. No colégio, a aula foi chata como sempre. Marcos desenhava no canto esquerdo da sala em sua inseparável prancheta de desenho. Era aula de Literatura, a professora falava sobre uma época de escritores sonhadores, escreviam sobre o amor impossível, mas acreditavam que poderiam amar, para eles o amor era o motivo da existência, a mulher amada era o único ser vivente que poderia dar-lhes paz de espírito. - Por que eu não nasci nessa época? Perguntava para mim mesmo. Pois por mais mágoa que eu tivesse, por mais falta de carinho que me enfraquecesse, havia algo em mim que queria sair, uma vontade de dar amor, desejo que me queimava e concedia a facilidade de me relacionar com as pessoas, o que me tornava bastante popular no colégio, na rua, ou em qualquer lugar que eu fosse. Sempre buscava dar exatamente aquilo que eu não tinha e assim arranjava forças para sorrir e as vezes sonhar em uma vida melhor. Na volta para casa, eu andava cabisbaixo, Marcos me fazia companhia já que íamos na mesma direção. Uma garota passou por mim andando lentamente, eu quase não notei a não ser quando uma outra garota chamou.
— Ei, Joana, espere por mim! — gritou.
— Tudo bem, eu espero, mas anda logo.
Nesse momento um frio correu a espinha, o meu coração entrou num descompasso de susto. "Eu já ouvi essa voz em algum lugar" — pensei por um momento e parei. Lembrei do sonho, da imagem ofuscada que me disse eu te amo. Parei por um instante. Marcos que sempre voltava comigo indagou:
— Anda, cara. Tá esperando o que?
Não respondi. Na verdade nem ouvi direito o que ele falou. Minha respiração estava acelerada, foi quando tomei coragem e olhei para trás. As duas garotas entraram em um carro muito bonito; uma era morena com cabelos negros, um pouco baixa, talvez, a outra não deu para perceber a altura, o máximo que vi foi a ponta dos seus cabelos castanhos. Antes que ela entrasse completamente no carro. Não pude notar se havia mais alguém sentado no veículo a não ser um senhor, sério, com a aparência não muito cordial que dirigia o automóvel.
— Júlio! - Hã... o que? Oh, Marcos, foi mal, eu não vi você ai.
— O que deu em você, cara? Parou no tempo, foi? De quem e aquele carro que você tanto olhava?
— De ninguém, Marcos, esquece, eu só achei que...
— Vamos, fala. - Não, não, deixa pra lá.
— Ih... não estou gostando nada disso.
Marcos me encheu o saco com isso durante todo o caminho, só tive sossego quando entrei em casa, mas ele jurou que iria descobrir o que eu estava escondendo. Meu coração, como sempre, estava aflito, mas desta vez era diferente, não era tristeza que o afligia, era curiosidade. Quem era a dona daquela voz? Como seria a face daquela garota cuja voz invadiu meus sonhos? Pensamentos surgiam, na mente de um adolescente de 17 anos. Imaginei uma mulher de curvas salientes e sedutoras que me desse deleite só de admirar o seu corpo. Outra figura que me veio foi a de uma garota horrível, barriguda com os dentes amontoados ou talvez ainda uma menina singela com os olhos verdes e com o corpo reto, e magro, como uma vara de bambu. Mas não a Dona daquela voz deveria ser linda. Eram muitas as imagens ,todavia a única coisa que eu poderia afirmar é que aquela voz não me saia da cabeça. Dias, meses e anos, pensei naquele rosto omisso nos meus delírios. Ao caminhar durante a noite, repetia para o vento o que no sonho ouvi pela primeira vez — "Eu te amo, eu te amo, eu te amo..."

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